Fui, por anos, usuário do bondinho de Santa Teresa. Descia diariamente para trabalhar no Centro do Rio. Eficaz, rigorosamente no horário, desestressante por natureza. O motorneiro, invariavelmente, parara em um ponto e outro e esperava que surgissem os passageiros regulares daqueles horários. Habitualmente jovens e crianças, alunos de escolas públicas. Todos os dias, em diferentes horários, e nos fins de semana o dia todo, um paraíso para turistas brasileiros e estrangeiros.
Que cidade no mundo oferece, além de praias paradisíacas, uma floresta, comércio, rede hoteleira, caipirinha e sandálias havaianas um bonde do século XIX que cruza um bairro que é um enclave histórico a dois passos do Centro ou da Zona Sul embalado por samba, MPB, bares e restaurantes e, algumas vezes por ano, por ateliês abertos e seus artistas?
Mas começaram a acontecer mortes. Um descarrilamento, uma professora se foi. Agora, resultado de negligência criminosa do Poder Público, quatro mortos e dezenas de feridos. Um bonde sem freio termina cortado ao meio numa curva e depois de espremer seus passageiros e o motorneiro entre seus escombros e um poste. O pobre do motorneiro morto ainda vai acabar levando a culpa, ainda que fosse conhecido por seu cuidado e lentidão. Afinal, mais do que ninguém sabia o veículo que tinha em mãos. Houve outro acidente com morte, um turista que despencou nos Arcos, mas ali vai uma componente de imprudência. Viajar sobre os arcos no estribo (eu já fiz) faz com que o pé fique sem espaço entre o estribo e a mureta, ralando o sapato se você não tiver cuidado e vulnerável a qualquer movimento.
Agora, outra lamentável tradição no Brasil, a imprensa levanta os dados que estavam ali, abertos, disponíveis a quem se interessasse, mas que só atraem este setor depois de uma tragédia anunciada. Pois descobrimos então que "o governo empenhou (reservou para pagamento), em 2007 e 2008, apenas 7% do previsto no programa de "revitalização, modernização e integração de bondes", que consta do orçamento da Companhia de Engenharia de Transportes e Logística (Central), responsável pelo transporte. Esse programa não aparece na execução orçamentária do órgão em 2009 e 2010. Na soma dos quatro anos, o governo também reduziu em 14% os recursos destinados à "manutenção das atividades operacionais e administrativas" da Central."
E mais, que em 2008 a empresa que administra os bondes demitiu 849 funcionários. Só esse ano, foram cerca de 120 demissões. A média salarial dos empregados é de R$ 700. Um maquinista ganha, no máximo, R$ 450. Enquanto isso, não há novas contratações e a demanda de passageiros aumenta. No início dos anos 90 eram 14 bondes em operação. Hoje, são cinco, sendo que sempre há um fora de circulação. No fatídico sábado eram apenas três.
As chuvas que castigaram o Rio há alguns verões provocaram desabamentos na Rua Almirante Alexandrino, que corta Santa Teresa de um extremo ao outro. Do Morro dos Prazeres à entrada do Hospital Silvestre, o trânsito ficou bloqueado por meses. Tempo no qual agiram quadrilhas que roubaram todos os fios que alimentavam os bondes de eletricidade. Quem disse que houve interesse por parte dos gestores públicos de se recuperar aquele ramal de bondes?
Ora, se há corredores expressos de ônibus na Zona Sul, se há um trem bala Rio-São Paulo na pauta, por que um gestor iria se preocupar com - agora me utilizando da linguagem dos críticos aos bondes - um sistema de transportes antiquado, em que pobre vive entrando e andando sem pagar, cujos trilhos rasgam pneus (lenda mantida por taxistas) e que não permitia a proliferação as máfias das vans ou das empresas de ônibus. Ora, para esses, aquelas "peças de museu" já deveriam ter sido feitas justamente isso há anos.
Se esquecem porém que os bondinhos são uma atração à parte para centenas de milhares de turistas que frequentam o Rio e, mais particularmente, Santa Teresa. São programa obrigatório para quem quer conhecer um lado mais histórico e bucólico dessa metrópole cuja política de atratividade de turismo continua jogando no lixo tudo o que poderia ser fator de mais atratividade. Basta ver o estado deplorável do sonhado hub da aviação, o Galeão.
O preocupado (sic!) secretário estadual de Transportes mostrou exatamente o tamanho de sua preocupação: levantar suspeitas sobre as razões de o motorneiro não ter conduzido o bonde para a garagem depois de um acidente com um ônibus naquele sábado. Dizia estar se "atendo a relatar os fatos registrados nos livros da empresa que administra os bondes". Oh que oportunidade de ter nos poupado, secretário!!!!!
Aí interrompem o serviço dos bondes, continuam a ignorar o desprezo com que são tratados pela Central os motorneiros e demais profissionais que atuam nos bondinhos. Na visão de maquinistas e outros quadros da Central, quase uma sub-raça. Aí, com cada vez menos bondinhos em circulação, demitem, passam o rodo. Danem-se profissionais, dane-se Santa Teresa, dane-se população e visitantes. Esta é a visão do estado, lamentavelmente. Afinal, como é que alguém vai fazer "caixinha de campanha" e outras tretas e tramóias com meia dúzia de cacarecos? Ora, eles têm meios e interesses mais... ricos. Fossem frotas de jatinho o debate seria outro.
Por estas razões recomendo a privatização dos bondinhos, a única maneira decente de preservar uma atração turística do Rio, um meio de transporte social para uma parte da população do bairro que deverá merecer continuar passeando de graça quando convier (nada de portas ou cobradores truculentos) e de tirar essas patas omissas, culpadas, negligentes e criminosas dos ocupantes dos poderes públicos de um bem que não lhes pertence, mas a nós.
O modelo de edital pode perfeitamente passar pela aprovação da associação de moradores do bairro. Caso contrário, se vierem as habituais máfias dos ônibus, vans e afins (aquelas que costumam financiar campanhas de políticos indecentes), basta a gente deitar no trilho e dizer, em ritmo de samba ou chorinho: "No passaran!"
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